O que Barcelona fez para evitar novas inundações e mortes

Por Milkylenne Cardoso
5 Min Read

Para combater enchentes urbanas, como as que atingem neste momento de forma trágica o estado do Rio Grande do Sul após fortes chuvas, Barcelona, capital da Catalunha, na Espanha, desenvolveu uma solução engenhosa: tanques subterrâneos gigantescos, capazes de armazenar milhares de litros de água pluvial.

Essa inovação surgiu como resposta a uma das grandes catástrofes naturais da cidade, a tempestade de 1995, que resultou em intensas chuvas que geraram inundações devastadoras e a perda de uma vida.

A cidade, que frequentemente se via submersa após
fortes chuvas, buscou na tecnologia uma aliada para reverter esse quadro. O
primeiro tanque foi construído em 1999, e atualmente Barcelona conta com 15
dessas estruturas espalhadas por todo seu território. Esses depósitos, também
conhecidos como “tanques de tempestades”, não só previnem inundações como
também contribuem para a redução da contaminação das águas residuais antes de
serem despejadas no meio ambiente.

Estima-se que anualmente 900 toneladas de
resíduos são impedidos de serem descartados diretamente no meio ambiente graças
a esses tanques. Além disso, a água armazenada no local, após ser tratada (processo
que é realizado ali mesmo), pode ser utilizada para limpeza de ruas e para a irrigação
de áreas verdes, contribuindo para a sustentabilidade urbana.

Sob o parque Joan Miró, localizado no sul de
Barcelona, por exemplo, repousa um desses tanques com capacidade para 55 mil m³
de água, o equivalente a aproximadamente 22 piscinas olímpicas. Quando as
chuvas são intensas, o sistema automatizado da cidade abre as comportas,
permitindo que o tanque acumule água e evite que as ruas se transformem em
rios.

A implementação desses tanques teve um impacto
significativo na redução de episódios de inundações em Barcelona. Um estudo publicado
em 2022 na revista Nature
destacou a cidade como um caso de sucesso
na gestão de riscos naturais. No entanto, a professora María del Carmen Llasat,
da Universidade de Barcelona, que contribuiu com o estudo, enfatiza que, apesar
dos avanços, ainda há muito a ser feito, como aumentar a permeabilidade do solo
e manter as ruas e drenagens limpas.

“A permeabilidade do solo deve ser aumentada com
pavimentação que permita a filtragem da chuva, mais áreas devem ser reservadas
para espaços verdes e as ruas e os sistemas de drenagem devem ser mantidos
limpos”, disse ela ao site espanhol elDiário.

Chuvas intensas ocorridas em 2019 em Barcelona destacaram
a importância do sistema de gestão de águas pluviais na cidade. Naquele ano, foram
registrados 79 episódios de chuva, sendo 10 desses intensos. O sistema de tanques
subterrâneos, como o localizado sob o parque Joan Miró, desempenhou um papel
crucial na mitigação de possíveis inundações. Mesmo com a precipitação máxima
diária atingindo um recorde, com 139 litros por metro quadrado, segundo o site elDiario,
os tanques foram capazes de armazenar água suficiente para evitar enchentes,
sendo preenchido somente 60% de sua capacidade.

Barcelona não está sozinha nessa jornada. Outras
cidades espanholas, como Madrid (que atualmente possui o maior tanque desse
tipo), Murcia e Bilbao, também adotaram tanques similares, mostrando que a
solução da capital catalã pode ser replicada com sucesso em diferentes
contextos urbanos.

A cidade continua a expandir sua rede de tanques,
com planos de chegar a mais de 30. A iniciativa tanto protege a população de
futuras enchentes como também serve de modelo para outras cidades ao redor do
mundo que buscam soluções inovadoras para desafios semelhantes.

Barcelona conseguiu transformar uma adversidade em oportunidade, demonstrando que, com planejamento e o investimento em infraestrutura, é possível mitigar os efeitos devastadores de tragédias climáticas e proteger a vida urbana de futuras catástrofes naturais.

Fonte: www.gazetadopovo.com.br

Share This Article