De volta a Pernambuco, seu Estado natal, para a inauguração de uma estação de água e adutora, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstrou estar empenhado em ajustar seu discurso político para atingir um segmento específico do eleitorado, o evangélico. Diante de uma plateia de apoiadores, Lula relacionou a obra a Deus e tratou a entrega do sistema de água como “um milagre da fé”.
Ao todo, em menos de 30 minutos de discurso, o presidente repetiu 13 vezes a palavra “milagre”, fez nove menções a “Deus”, citou cinco vezes o vocábulo “fé” e repetiu em duas oportunidades o termo “crença”.
As diversas menções ao “homem lá de cima” – outra expressão usada por ele – coincidem com o resultado de pesquisas recentes de opinião. Os levantamentos mostram que a aprovação do governo Lula caiu principalmente entre os eleitores neopentecostais.
Além disso, nos últimos dias, o governo lançou um novo slogan para entregas de obras: “Fé no Brasil“, mote criado pela Secretaria de Comunicação Social (Secom).
No evento, Lula disse que não iria ler um discurso escrito, mas demonstrou ter entendido a necessidade de se comunicar com o segmento cristão. Logo no início de sua fala, Lula perguntou se os apoiadores acreditavam em Deus.
“Queria perguntar se vocês acreditam em Deus, se acreditam em milagre? Então vou contar dois milagres para vocês que estão acontecendo agora”, disse. Em seguida, o presidente passou a lembrar da sua infância, em Pernambuco, quando ele tinha de buscar água em açude para beber.
“A obsessão que eu tenho pelo Nordeste e em levar a água para o Nordeste é porque, quando eu tinha 12 anos de idade, eu tinha que buscar água em açude, uma água barrenta. Tinha que deixar a água assentar, a gente não tinha filtro, não tinha cultura de ferver a água. Tinha muita gente que morria de esquistossomose na época”, disse.
Ao fazer esse paralelo, o presidente repetiu por diversas vezes que ele chegou à Presidência para ajudar a realizar um “milagre”. “O primeiro milagre que a gente está vivendo hoje aqui é porque ninguém acreditava que seria possível fazer a transposição [de água] que estamos fazendo hoje aqui. Esse é um milagre com um cara que viveu a seca. Eu saí daqui para não morrer de sede e volto agora para fazer a transposição [do Rio São Francisco]. Isso só pode acontecer por causa da fé de vocês, da crença de vocês”, defendeu.
“Se vocês não tivessem fé, jamais vocês teriam votado num pernambucano para a Presidência da República. Foi um ato de fé, um ato de coragem, esse foi o primeiro milagre”, complementou.
Seguindo esse raciocínio, Lula deu a entender que Deus teria escolhido “um nordestino” para resolver o problema da escassez de água na região. “Tudo que é feito para o pobre eles falam que é gasto, quando é feito para o rico, eles falam que é investimento. O homem lá de cima falou que ia ajudar os nordestinos através de um nordestino”, contou.
Por fim, Lula citou um “segundo milagre”. “O outro milagre que estamos tentando fazer é que as pessoas tenham acesso a ensino de qualidade”, citou. “Eu resolvi investir na educação e, com a graça de Deus, com o milagre da fé, eu sou o presidente que mais fez universidades e escolas técnicas nesse país”, repetiu.
“Esse país ficou 400 anos sem universidade porque a elite brasileira mandava seus filhos estudar em Paris, Londres, enquanto que o povo brasileiro ficava cortando cana, sem perspectiva de vida. Dependendo do berço que a pessoa nascesse, a gente sabia: esse vai ser doutor, esse vai ser peão”, acrescentou.
Por fim, Lula voltou a defender o governo existe para dar oportunidade aos mais pobres, mas voltou a citar “Deus”. “A gente pode ser o que a gente quiser, é só o governo dá oportunidade. A gente não fez opção para ser pobre, a gente não quer ganhar mal, estudar mal, a gente nasceu para querer todas as coisas boas que Deus deu. Pode ter certeza que esse milagre será completo”, concluiu.
O evento foi a inauguração da Estação Elevatória de Água Bruta (EEAB) de Ipojuca e do trecho Belo Jardim – Caruaru da Adutora do Agreste de Pernambuco, no município de Arcoverde.
Com esta nova estação, nove municípios do agreste pernambucano passam a ter abastecimento regular de água, atendendo a aproximadamente 615 mil pessoas. Segundo o governo, quando o sistema for finalizado, serão 1.400 km de adutoras que levarão 4 mil litros por segundo de água da transposição do Rio São Francisco para abastecimento da região.
